O coelho pagão que salta pelos séculos cristãos
O coelho pagão que salta pelos séculos cristãos
Por entre os aromáticos campos de tulipas em Amsterdã, as colinas em plena florescência de Heidelberg, os parques festivos de Paris e os pátios ensolarados de Praga, o coelho corre, saltitante e cerimonioso, como quem traz consigo a alvorada da primavera. Ali, onde as flores despertam em sincronia com o calendário pascal, ele simboliza a renovação concernente a toda e qualquer vida, inclusive a silvestre.
No
entanto, eis que, atravessando oceanos e estações, o mensageiro primaveril
também chega ao hemisfério sul, onde entre folhas secas que se acumulam
delicadamente nos jardins de Gramado, é recebido, outrossim como uma célebre
aparição sacra. Consequentemente, até a névoa que, apesar de já pressentir a morte
invernal, rende-se à alegria restauradora do período pascal.
Sendo
assim, prolifera-se o ícone do coelho — criatura miúda, mas ancestral em sua
simbologia —
em toda a nossa ornamentação ocidental. O mesmo habita em vitrines
resplandecentes nas quais organiza os seus ovos sarapintados, saltando assim do
folclore germânico até à doçura brasileira.
Contudo,
por que foi justamente o coelho eleito para simbolizar o ressurgimento cristão?
Como
é, de praxe, para intrincadas questões milenares a resposta tende a ser tão
prolixa quanto a origem da pergunta. Com isso devidamente em mente, desde o
outrora pagão, esse animal foi saudado como um arauto de fertilidade e renovação.
Entre os povos do norte da Europa, era consagrado à deusa Ostara, divindade germânica
da primavera, cujo nome ecoa na própria palavra Easter do inglês cujo tronco linguístico
indiretamente é também o protogermânico.
Com
a chegada do Cristianismo, todos os rituais festivos e símbolos comemorativos foram
ressignificados: o renascimento selvagem é empregado para emblemar a
ressureição de Cristo e o coelho com o seu vertiginoso ciclo de vida e as
abundantes ninhadas, logo transforma-se na metáfora ideal para a vitória vital.
No
século XVII, surgem na Alemanha os primeiros relatos do Osterhase,
traduzido para o nosso idioma vernáculo como coelho da Páscoa. Segundo a lenda
local, ele visitava as melhores crianças, trazendo doces ovos variegados. E as similaridades com as tradições natalinas não são
meras coincidências: tanto o coelho da Páscoa quanto o mítico papai Noel
nasceram no território teutônico, fruto de uma confluência entre o folclore
popular e o imaginário cristão, ambos encarregados de premiar os
bem-comportados.
Essa é uma ilustre fantasia encantada que
viajou com os imigrantes germânicos rumo à América, e mais tarde, para os
quatro cantos do mundo.
No
Brasil, especialmente no Sul, a supracitada tradição floresce. A título de
exemplo, em Gramado, turística cidade gaúcha, ela viceja com extraordinário
esplendor: os coelhos ganham contrapartes de pelúcia, papel, chocolate, ou
mesmo, iluminação. De fato, abundam a decoração citadina, parecendo evocar uma
infância que ainda mora em nós. Ao seu lado, os ovos de Páscoa são transfigurados
em arte comestível. Uma perfeita alquimia entre a história e a culinária.
E
assim o coelho saltita por entre os séculos em uma perene travessia cíclica.
Peregrinando, adaptando-se às culturas, fundindo-se às cores e sabores de cada
povo. No México, ele se banha em piñatas pascais, ao passo que, na Ucrânia,
observa os ovos meticulosamente desenhados, já nas Filipinas, desfila em
encenações que misturam teatro e religião. Em cada lugar, ele carrega um traço
vernacular do que fomos e do que esperançosamente ainda podemos ser.
Nesta
Páscoa, ao contemplarmos os ornamentados coelhos de Gramado entre laços de
chocolate e vitrais dourados, talvez vejamos mais do que um belo enfeite, mas
também um elo. Um fio memorial que atravessa séculos, continentes e culturas,
saltando sempre para o recomeço e tendo a nós como fiandeiros vigentes.
Para conhecer mais do meu trabalho, inclusive os meus livros, acesse o link abaixo:
Bibliografia:
BUNSON,
Matthew. Encyclopedia of Catholic History. Huntington: Our Sunday
Visitor Publishing, 1995.
GERMAN CULTURE AND FOLKLORE. Osterhase: The German Easter Bunny Tradition. Disponível em: https://germanculture.com.ua/uncategorized/the-german-easter-bunny-the-origin-of-the-osterhase/. Acesso em: 17 abr. 2025.
HUTTON,
Ronald. The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain.
Oxford: Oxford University Press, 1996.
LEACH,
Maria. Standard Dictionary of Folklore, Mythology and Legend. New York:
Funk & Wagnalls, 1984.
MOTZ,
Lotte. The Faces of the Goddess. New York: Oxford University Press,
1997.
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. A origem do coelho e dos ovos de Páscoa. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/video/tv/qual-e-a-origem-do-coelho-da-pascoa. Acesso em: 17 abr. 2025.
SCHMIDT, Leigh Eric. Consumer Rites: The Buying and Selling of American Holidays. Princeton: Princeton University Press, 1995.
SMITH,
Bonnie G. (Ed.). The Oxford Encyclopedia of Women in World History.
Oxford: Oxford University Press, 2008.
TYLOR, Edward B. Primitive Culture. London: John Murray, 1871.








Feliz Páscoa!
ResponderExcluirObrigado, igualmente!
ExcluirParabéns, uma bélissima reflexão!
ResponderExcluirGrata, é um prazer compartilhá-la com vocês!
ExcluirParabéns e uma feliz pascoa para todos!
ResponderExcluirQue assim seja!
ExcluirAdorei, sempre pensei o porquê de escolherem o coelho!
ResponderExcluirFeliz em esclarecer a tua dúvida!
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