Ópera de Gelo - Discurso da escritora Victoria Nogueira na Feira do Livro de Pelotas

 Ópera de Gelo - Discurso da escritora Victoria Nogueira na Feira do Livro de Pelotas 

Boa tarde a todos! É um imenso prazer estar aqui. Hoje tenho a honra de compartilhar com vocês um pouco sobre o meu romance histórico, Ópera de Gelo.

Ópera de Gelo foi um novo patamar para minha escrita, um romance histórico que se tornou um verdadeiro marco em minha carreira. Desde o lançamento de sua tradução em espanhol, Ópera de Hielo, em agosto em Buenos Aires até a sessão de autógrafos hoje aqui com vocês.

O cenário de Ópera de Gelo é a Rússia czarista, uma terra de contrastes brutais, onde o esplendor dos palácios e a opulência das cúpulas convivem lado a lado com a dura realidade da servidão. Neste vasto império, uma governante iluminista, a quem toda a Europa se referia como "a Grande", reinava com uma mistura de poder absoluto e sutil sofisticação. No entanto, enquanto poucos descansam em tronos luxuosos, milhares de camponeses trabalham nos campos plantando o ouro campestre, também conhecido como trigo, que mantém o império.

As cidades mais conhecidas e influentes da Rússia, como São Petersburgo e Moscou, estão concentradas na parte ocidental do país, que, embora menor em extensão, é mais desenvolvida. Contudo, devemos lembrar que boa parte do território russo é dominada por um clima extremamente frio, particularmente nas regiões da Sibéria. Nessas áreas, onde as temperaturas podem facilmente cair para -50 graus encontramos vastos desertos de neve que, no imaginário russo, são muitas vezes evocados como um inferno glacial. Durante séculos, ser exilado para a Sibéria era uma punição severa, reservada para os piores prisioneiros.

Ao entendermos essas dinâmicas, podemos apreciar melhor as complexidades históricas e culturais da Rússia, um país que sempre procurou definir sua identidade entre o Oriente e o Ocidente.

É nesse mundo que conhecemos Yelena, a protagonista de Ópera de Gelo, cuja história é marcada por uma prática peculiar e cruel da Rússia imperial. Os senhores de terra escolhiam as crianças mais belas dos servos, geralmente antes dos sete anos, para compor as suas equipes artísticas. Essas crianças eram arrancadas de suas famílias e enviadas às capitais europeias para serem educadas nas artes e nas línguas eruditas como alemão, inglês e francês.

Apesar dos privilégios aparentes, essas crianças continuavam sendo servas, presas em uma encruzilhada social, ou melhor, a escravidão. Muito nobres para serem amigas de camponeses como antes, mas nunca completamente aceitas pela nobreza. Todo artista na Rússia Imperial era um escravo, não havia artista livre mesmo que ele se apresentasse, como ocorreu, para o próprio czar, imperador russo, e fosse conhecido em toda a Europa, ele não tinha o direito humano a liberdade.

Yelena, nascida de uma família camponesa, acreditava que já conhecia o seu destino. Mas, ele mudou drasticamente quando foi escolhida para ser uma artista senhorial. Enviada a Paris ainda criança, ela foi transformada em uma talentosa cantora de ópera. Mas, ao retornar, ela descobre que é ainda também uma menina do campo.

No estrangeiro, Yelena era vista como uma piada, uma aberração. Assim, a sua língua materna, os seus costumes e até a maneira de se vestir eram motivo de vergonha.

Esses elementos da cultura russa, tão naturais para Yelena, tornavam-se, em Paris, símbolos de sua diferença, marcando-a como uma estrangeira em um mundo que ela mal compreendia.

Os russos e a própria Yelena se consideravam inferiores ao resto da Europa. Estereótipos são algo com que todos lidamos e mesmo que eles não sejam uma maneira confiável de julgar alguém, todos somos influenciados por ele. Se alguém perguntasse o que existe na Rússia? Seja hoje ou no século 18, responderiam que neve, uma língua difícil e expressões sérias. Eles eram interpretados como pessoas estranhas em uma terra exótica.

          Para reverter essa situação resolvem imitar quem os criticava. Três países eram considerados representantes da Europa devido à importância e poder: Alemanha, Inglaterra e França, mas se tivesse que escolher só um seria a França. Ela era a definição do que se espera da Europa.

Ser francês na Rússia já te faria alguém muito importante, as crianças dos nobres apreendiam e eram encorajadas a falar só em francês, considerado o idioma da alta cultura e da sofisticação. Mas, quando eu me refiro ao povo russo, estou me referindo aos nobres, mas a maioria dos russos eram camponeses vivendo em condições análogas à escravidão. Existia dois russos completamente diferentes na Rússia. O servo russo que trabalhava na terra e o nobre russo que a possuía. Esses dois são uma completa antítese.

O dilema de Yelena é complexo. Ao longo do romance, ela luta para encontrar o seu próprio lugar entre as classes sociais que dividem a Rússia. No palco, Yelena se empenha para superar a sua rival, a cantora Anna mais popular do que ela. Mas, enquanto tenta superar Anna dentro da ópera, Yelena é assombrada por suas raízes, por um amor que a puxa de volta à terra, e pelo desejo de encontrar algum significado para todos os sacrifícios que fez na infância.

O que mais me fascina em Ópera de Gelo é a dualidade que Yelena enfrenta. Ela é, ao mesmo tempo, camponesa e artista, provinciana e parisiense, prisioneira resignada e revoltada. Essa dualidade é uma metáfora para a própria Rússia czarista, um império de extremos, onde o luxo e a miséria coexistem.

Além disso, o romance aborda a questão da identidade, uma questão que todos nós enfrentamos em algum momento de nossas vidas. Quem somos, afinal? Somos o produto de nossas origens, ou podemos nos reinventar? E se nos reinventarmos, o que acontece com a parte de nós que deixamos para trás? Esses são os questionamentos que permeiam a vida de Yelena e que espero que toque em vocês também.

Escrever Ópera de Gelo foi uma jornada desafiadora e profundamente gratificante. Ao mergulhar na complexidade da Rússia imperial e na vida de Yelena, pude explorar questões que transcendem o tempo, tocando em temas universais de identidade, pertencimento e o eterno conflito entre o passado e o presente.

Espero que vocês, assim como eu, encontrem em Yelena, alguém que nos lembra que, independentemente de onde começamos, todos temos o poder de moldar nossas vidas – mesmo que, no processo, acabemos nos surpreendendo com o que encontramos.

Muito obrigado pela atenção de todos. Sintam-se à vontade para me procurar para conversarmos mais sobre o livro. E não deixem de compartilhar suas impressões comigo. Um grande abraço! 

 Link para conferir Ópera de Gelo, o meu romance histórico. 

Link para conocer Ópera de Hielo, la traducción al español de mi novela histórica.

Link para conferir Ópera de Gelo, o meu romance histórico em eBook.

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