Um raio de esperança sobre a escura Londres - Conto
Um raio de esperança sobre a escura Londres - Conto
Eu amo Londres, mas tenho a inquietante sensação de que
não a conheço por completo. Porque, tudo que o Timmy, meu grande amigo, me
conta soa como um delírio. Ele diz que, onde ele mora tudo é espremido para que
possa caber todas as turbas camponesas que se assentam cá, por isso nas margens
fabris da cidade não existe verde, algo que lhe torna um aficionado pelo nosso
jardim e um especial admirador das macieiras que, segundo ele, possuem o mais
doce e fresco manjar já existente. Ele afirma com convicção que o meu lar
poderia servir para mais de vinte famílias, porém ele não apoia esta ideia, já
que, enxerga nas diversas ornamentações qualquer aspecto divino que me foge da
compreensão. Para ele, todas as cores são mais vívidas e as estátuas tão
esplêndidas que acha um desrespeito não se dirigir a elas, quando contornando o
muro, entra no jardim para me visitar. Ele é um menino que se arrebata com
pouco.
Ele escuta sobre a minha rotina com concentração e
deslumbramento, algo que deveras me surpreende, afinal eu própria a considero
enfadonha para dizer o mínimo. Cotidianamente, me debruço sobre livros de latim
e francês, também estudo a literatura e a história, embora o foco maior se deva
as infindáveis aulas de etiqueta que se demoram sobre questões dispensáveis,
pois eu saberia como me vestir, falar ou andar mesmo que a decrépita senhora nada
tivesse me ensinado. Ademais, ele defende a importância de tudo que apreendo,
enquanto o meu próprio pai me trata com superficialidade e me confia apenas as
perguntas mais bobas tal como ‘’ qual será o tempo de hoje? ‘’ Como se ele já
não soubesse que será cinzento e frio. Além do mais, quando me livro mais cedo
do supérfluo chá da tarde, por vezes, o ouço resmungar sobre a falta que faz um
varão em descendência tão nobre. O descaso do meu pai que não me destina
relevância e o desinteresse da minha mãe que se resume a organizar a nossa
moradia com tanto esmero que me questiono qual é a necessidade de uma governanta,
tudo corrobora para que eu me sinta imprestável o que costuma me machucar.
Enquanto,
o Timmy não sofre nem desse padecimento, já que, ele é órfão desde que se
entende como vivo e, por isso livre para abrir as asas e voar sobre o Tâmisa.
Eu sou criada para ser um anjo do lar como aborrecidamente realça a minha
preceptora já ele é um aventureiro do mundo que responde somente às próprias
regras, tendo como única obrigação se dirigir pontualmente a fábrica todos os
dias, aliás, isso só prova que estou certa de que ele se ocupa com qualquer
tarefa extraordinária com a qual não pode se eximir, porque se eu me esquivo
das minhas obrigações ou redefino os meus horários o pior que pode acontecer é
ser censurada pelos meus pais, enquanto ele assegura sombriamente que seria o
fim prematuro da sua vida se fizesse o mesmo.
Na fábrica, onde ele trabalha, recebe-se um tal de ouro preto que deriva dos lugares mais remotos e longínquos da Europa. Ele é motivo para cobiça geral e aparentemente serve para alimentar os monstros engaiolados nas indústrias. Eles são enormes e confeccionados dos mais estranhos materiais, possuem a pele de ferro e as articulações de prego, além do mais são ferozes e impiedosos. O Timmy me narrou algumas perdas deploráveis que o acometeram e exibindo um olhar opaco afirmou que independentemente do quanto se clama por piedade, logo se é engolido pela criatura maquinal. Por isso, é necessário mais de mil homens para domar e aproveitar o ser mecânico que oferece as mais diversas e úteis posses, ele diz que ninguém depreende precisamente o funcionamento do monstro e muito menos já lhe vislumbrou por inteiro, portanto entre os operários reza a lenda de que se um deles sobreviver o bastante poderá conhecer toda a fera. Este é um grande sonho do Timmy que se resguarda de inspirações e devaneios, enquanto eu me limito a aguardar o momento que trocarei de lar para assumir o mesmíssimo encargo para o qual sou treinada desde que descobriram o meu gênero.
Apesar,
de tudo ele desgosta do labor que executa, pois o desgasta em demasia e também
abomina o aspecto fabril que reina no curso anfêmero do seu dia. Porque, tudo
parece morto, as fabricas são tão cinzentas e melancólicas que lhe lembram um
cemitério e a procissão cabisbaixa que os operários se resignam para
diariamente fazer pode ser comparada com uma fúnebre. Por isso, ele se aventura
pelas estreitas vielas empoeiradas de onde provém, porque ambiciona repousar
nos vastos e serenos parques. Desta forma, ele pode pertencer por um mísero
segundo a realidade que gostaria e não a que lhe foi imposta, então ele
aproveita para se encantar com a dança langorosa dos cisnes e com o ruído que
os dentes afiados do esquilo produzem na noz surrupiada. Tudo parece uma
orquestra para quem é acostumado com o barulho cadenciado e enervante do tinir
enferrujado das peças que acompanha o ímpio relógio que age como a voz suprema
que dita o andamento da sua vida diária. Quando, pode estar por aqui, ele
envereda para as largas avenidas em que as fontes são exuberantes pinturas em
movimento, as estátuas instigantes criaturas fantásticas e a arquitetura uma
arte proibida que só é permitido admirar. Eu o conheci em uma situação similar
em que fui cativada não pela sua aparência esdrúxula, mas pela maneira
apaixonada com que observava o mundo ao redor que, para mim, possui contornos
tão ordinários e maçantes.
Ele
foi extremamente simpático, depois de perceber com certa insistência que se
tratava dele mesmo. Depois de conversamos, eu o ofereci alguns doces que ele
provou com entusiasmo e, já que, estava tão absorta em nosso envolvente
diálogo, eu não me atentei para a chegada do meu pai que esbraveja ao reparar
no Timmy que já retrocede acuado. Ele o reprocha com seriedade e o faz jurar
que nunca mais pisará em nossa propriedade, o Timmy ouve tudo compenetrado
esboçando uma leve reação apenas quando é nomeado Timothy, algo aparentemente
inédito para ele. Por outro lado, fico surpreendida, afinal nós sempre
esbanjamos fartos banquetes, portanto não vejo nenhum problema em compartilhar
alguns itens com o meu novo amigo, após o ocorrido sinto fervilhar também uma
ardorosa indignação, pois já possuo tão poucos amigos que não me acho no
direito de renegar nenhum. Entretanto, os meus progenitores não permanecem
tempo o suficiente em nossa morada para que tenham consciência disso, sendo
assim, logo considero-me mais apta para julgar a minha própria vida do que eles
que sempre estão vociferando do pedestal moral que se respaldam devido alguma
conquista desconhecida.
Por
conseguinte, eu não hesito ao receber uma dádiva do desdenhoso destino e chamo
o Timmy, quando o entrevejo pelas grades douradas do meu jardim, ele se
aproxima cauteloso e até pávido, todavia lhe acomete uma súbita coragem que o
traz para perto de mim e faz com que eu contemple com nitidez toda a sua
fisionomia. Ele é mirrado, mas tem os olhos vigorosos de um castanho avermelhado
como as brasas de um ferreiro, enquanto os seus desgrenhados cabelos claros
quase beiram ao branco fazendo com que ele aparente estar sempre salpicado de
neve. Ademais, me fascina a forma como os traços frágeis do seu nariz aquilino
e dos seus finos lábios ressequidos contrastam com as suas fortes mãos
calejadas que ele constantemente se empenha para escamotear, embora eu pense
que elas sejam exóticas e não vergonhosas, afinal elas são como um quadro
respingado de cores, ou seja, possuem uma história para contar, enquanto as
minhas lívidas mãos apenas realçam a minha inutilidade. Sou retirada
bruscamente das minhas digressões pela sua voz tremente que acompanha o seu
olhar arrependido que evita com afinco o meu rosto:
— Gostaria que me perdoasse pela minha postura
inadequada, eu não tenho a intenção de te prejudicar.
— Não precisa ficar aborrecido, estávamos apenas
confabulando, no entanto, agora penso com pesar que não podemos mais ficar
aqui. Talvez, tu possas nos levar para algum lugar seguro, onde possamos nos
divertir, algo tão escasso para mim.
Ele arregala os olhos e assume um rubor na face que se
destaca por baixo das bochechas poeirentas, por isso eu me apresso para
arrematar:
— Não sou exigente apenas desejo um refúgio, quiçá um
lugar adorado por ti.
Ele permanece indeciso, então escapuli para a rua a fim
de confrontá-lo e apelo para a minha última esperança ao dizer com afetada
entonação invectivada:
— Caso, tu te negues. Fique ciente que eu jamais poderei
te perdoar.
Ele suspira se dando por vencido e depois se aproxima
para segredar:
— Eu não conheço muitos lugares que mereçam uma visita,
no entanto, existe um único que gostaria de te apresentar. Já advirto de
antemão que ele é muito longe, contudo acho que compensa o esforço para descobrir
o local, onde as nuvens são formadas.
Exprimo inconscientemente uma visagem o que faz com que
ele constrangido reafirme o seu ponto com uma convicção inabalável:
— Eu sei que parece improvável, contudo eu posso provar
tudo que digo. Tu podes conhecer o porquê de Londres ser tão nublada.
Ele sorri com ternura e aceito a sua sugestão, todavia
antes de sairmos, ele insiste que eu entraje o seu capuz surrado e, após
arrumar as minhas madeixas finalmente partimos. Optamos por um atalho pelo
parque assim caminhamos por entre as frondosas árvores que sacodem conforme a
vontade do caprichoso vento e falávamos alegremente até que um alto vulto
esbarra em mim, desta maneira, lançando-me na grama. O Timmy me oferece a mão
para eu levantar e, enquanto sacudo o meu vestido amarelo agora com diversas
nódoas de lama, faço menção de bradar algo para o sujeito que avança como se eu
não fosse ninguém. Entretanto, logo sou desencorajada:
— Nunca se deve afrontar um adulto garboso
independentemente do ultraje, acredite em mim, quando digo que nada de bom é
suscitado pelo atrevimento. Este é um direito que poucos ostentam. Além do
mais, ainda temos muito o que percorrer.
Restrinjo-me a concordar e prosseguimos com a jornada.
Logo, a ardente cólera se dissolve, quando a paisagem torna-se um assunto mais
interessante do que a minha desordenada mente. É perceptível o momento em que
as ruas belas e arborizadas são substituídas por ruelas espremidas e fétidas,
onde raros raios de sol se atrevem a adentrar para combater as trevas que se
assomam dando a todo ambiente uma aparência nauseabunda e principalmente
amedrontadora, quando, chegamos estava tudo a ermo quase abandonado, porém,
depois de conferir o sol que finca no meio do céu iluminado o Timmy acelera
para que nos deparemos no túrbido Tâmisa antes que as mesmas veredas sejam preenchidas
por uma ruidosa multidão que se movimenta com impaciência, mas impressionante
organização certamente é corriqueira esta rotina.
Encaro
tudo embasbacada, algo que seria indecoroso se não estivessem todos tão
centrados em sua própria existência para sequer desconfiar da minha. Após o
fenômeno se desintegrar com a mesma rapidez com que se instaurou, resolvo
continuar seguindo o Timmy e, embora eu continuei desconhecendo o percurso
tanto quanto antes atualmente sinto-me resguardada pela certeza de que, pelo
menos, conheço o célebre Tâmisa, se bem que estou acostumada a vê-lo rodeado de
monumentos históricos e esplêndidas edificações, ao passo que, que aqui ele é
cercado somente por imensas fábricas que cortam o céu com as centenas de
chaminés que fazem o ar se tornar insuportavelmente rarefeito. Estou tossindo
desde que cheguei o que arranca alguns olhares compadecidos dele, entretanto,
logo alcançamos a fortificação de tijolos que ambicionamos o que capta toda a
nossa atenção. Fico intimidada pelo enorme complexo industrial na beira do rio
principalmente pelas suas delgadas e finas chaminés que parecem abrir fendas
pelo céu, por isso empino tanto o meu rosto que o Timmy profere teatralmente ao
gesticular:
—
Seja bem-vinda a Torre de Londres do subúrbio operário.
—
Tenho que admitir que é impactante!
Ele
ergue os ombros e esbanja uma expressão lisonjeada, enquanto internamente me
encanto com a sua faceta vaidosa. Em seguida, ainda conservando a compostura
orgulhosa trata de vasculhar algo, eu tento o acolitar quando descubro que
perscrutamos a localização da ‘’ chave dos céus ‘’ de acordo com ele. Enquanto,
estamos agachados procurando, somos interrompidos pelo pigarreio de um homem
escorado na parede o que provoca em ambos um forte sobressalto, depois ele diz
sarcástico conforme esboça um débil sorriso embaixo da fumaça que expele
fazendo com que assim pareça uma imitação orgânica das fábricas que nos
rodeiam:
—
Eu não estou informado sobre um horário especial para os trabalhadores de
estatura reduzida, no entanto, sempre posso conferir tudo com o nosso amável
supervisor.
O
Timmy tartamudeia qualquer sentença inaudível, mas ao perceber que ele afrouxa
os ombros celeremente constato que ele corcunda iria até a forca para não
contradizer o adulto que arrostamos. Portanto, tomo para mim o valente encargo
de lhe defrontar e, por isso cruzo os braços e revido cínica, enquanto examino
o semblante cadavérico e imberbe que está parcialmente encoberto por uma boina
que ameaça despencar em cada brisa que o rio traz:
—
Na verdade, nós temos uma permissão extraordinária que nos foi concedida,
enquanto tu estavas vagueando, mas se desconfias obviamente pode notificar o
afável supervisor, embora para ti considere complicado esclarecer a exata razão
e circunstância, onde tu nos viste em teu horário laboral. Mas, acredito que
pensará em algo.
O
seu pequeno olho esquerdo descoberto, logo irradia um brilho perverso, contudo
ele pende a cabeça para o lado e complementa debochado ao se acercar da outra
parede:
—
Por que eu iria digladiar com outro combatente trabalhista? Eu não sou o
carrasco da história, na realidade, ele é um velho adiposo pelos frequentes
banquetes e bolsos repletos de ouro. Caso, ensejem furtar o tolo burguês saibam
que possuem o meu aval, afinal ele já nos rouba todo o nosso tempo, porque o
que ele me paga não corresponde nem mesmo ao esforço do meu despertar. Apenas
sejam cautelosos, pois nesta disputa de larápios tudo é permitido desde que não
sejam pegos.
Ele levanta os braços magros o que abaixa as mangas
fazendo com que eu enxergue os contornos dos seus ossos. Ele firma as suas mãos
em uma escada enferrujada que está trancada em uma aldrava improvisada e depois
força fazendo com que a escada estrondosamente desça até o solo e, por fim,
braceja ao desejar zombeteiro:
— Aproveitem a bela vista, estupendos funcionários.
Ele parte com um último olhar de viés, portanto eu e o
Timmy subimos a escada. Eu tive alguma dificuldade para escalá-la, já que, ela
por estar corroída frequentemente desliza, além do mais ela range ao menor
contato o que não se torna uma preocupante complicação, porque a compassada
orquestra maquinal trata de suprimir todo e qualquer barulho. O Timmy pela
maestria que empenha ao subir já estava no cume muito antes do que eu, deste
modo, ele me oferece a mão para ajudar no meu equilíbrio e depois solicita que
eu feche os olhos o que prontamente cumpro. Sou guiada até a extremidade do
precipício, onde me assento, ouço uma movimentação que sugere que ele faz o
mesmo e, em seguida, ele divaga enlevado, enquanto abro os olhos para
contemplar o que é descrito:
— É nesta porção renegada e esquecida da cidade, onde é
produzida as nuvens que transformam o horizonte em um eterno céu nublado. Acho
irônico ponderar que o que fazemos encarcerados nestas fábricas longínquas pode
ser observado em toda a cidade, um autêntico testemunho do nosso esforço
cotidiano. Não somos eruditos que produzem obras que moldam o pensamento ou
gênios que subjugam a natureza para erigir na realidade alguma ideia fantástica,
mas também deixamos a nossa marca na humanidade. Quando, estas espirais de
fumaça se fundem as nuvens, elas também mesclam a nossa essência ao âmago da
natureza que é perene e indestrutível. Gosto de saber que, apesar de ninguém se
importar ou conhecer os dilemas do pobre povo operário, pelo menos, a natureza
e, talvez Deus, se enterneça por nós e pelas nossas dores.
Aprecio mais uma vez a excentricamente linda paisagem e
tenho que concordar com tudo.
Link para conferir Ópera de Gelo, o meu romance histórico.
Link para conocer Ópera de Hielo, la traducción al español de mi novela histórica.
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Belo conto de uma doçura infantil!
ResponderExcluirObrigado, eu me esforcei para tratar o tema com a devida sensibilidade!
ExcluirUm conto sensível, tornando algo horrível em algo tão doce, parabéns!
ResponderExcluirGrata! É exatamente o que eu esperava!
ExcluirUm conto incrível com dois protagonistas puros que apresentam um mundo cruel com uma bondade impressionante!
ResponderExcluirObrigado, eu gostaria de traduzir precisamente a pureza infantil
ExcluirParabéns, um conto de profundidade impressionante!
ResponderExcluir❤️
Excluir👏👏👏👏
ResponderExcluir❤️
ExcluirParabéns, poderia ser um conto de Dickens!
ResponderExcluirQue honra! É um autor que eu admiro muito e cujos livros estão sempre em destaque em minha estante
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