A nossa democracia nasce nos salões de cabeleireiros - Conto

 A nossa democracia nasce nos salões de cabeleireiros - Conto

            O sistema político falho, embora inovador de que usufruímos foi criado há alguns milênios atrás em uma resplendorosa cidade-estado que ainda conserva o mesmo nome e alguns esqueletos dos gigantes arquitetônicos que erigiu.

A democracia ateniense segundo o viés contemporâneo é excludente, entretanto não pode receber outro epíteto que não seja vanguardista, porque mesmo que alguns detalhes nos pareçam arcaicos é vital recordar que foram tais mármores que lapidamos e persistimos lapidando. Tendo tal em vista é lógico a importância do franzino menino, afinal ele escorado em um salão qualquer de cabelereiro rente as muralhas estava a realizar os primeiros censos políticos. Eles que alguns milênios adiante seriam fundamentais para que políticos triunfassem e ruíssem antes que um único voto sequer fosse oficializado. Estava, enfim se modelando o poderio das abstratas intenções que atrozmente destroem e transfiguram a realidade, porque impelem os cidadãos a não inutilizarem o seu voto em um vã candidato que é eliminado antes de inaugurado a seleção o que se transforma em algo danoso a menor adulteração tendenciosa da pretensão popular. Todavia os prolixos pormenores eram desconhecidos para o mandrião que só se instigava pelo tilintar das dracmas que receberia se descobrisse a intenção de voto de alguns enfadonhos senhores que confabulavam sobre política e lazer, já que ambos eram ofertados para eles o que não se aplica ao Heitor, um miserável estrangeiro que privado do direito a política a contemplava com desinteresse e até com um certo caráter místico como se tudo que concernisse a ela fosse um enigma da Esfinge, não obstante, ele seria mais relevante a política do que os soberbos homens que aparavam o cabelo e a barba.

Na iminência de uma eleição qualquer o assunto em voga se restringia a política, sendo assim o encargo do Heitor não era complicado, apesar de mais crucial do que ele conjecturaria, por isso escutava o desenrolar do colóquio contabilizando em sua mente todos os nomes que são despretensiosamente proferidos. Sustentando-se sobre a frágil esperança que um esmirrado forasteiro pudesse se emaranhar entre as sombras, enquanto o cabeleireiro se ocupava com as frondosas madeixas loiras do imberbe loquaz que devido ao corpo ressumado e respiração entrecortada recém se libertou das obrigações do ginásio.

— Como aquele soberbo ignaro pensa que venceremos Esparta e os lacedemônios se vivemos enclausurados nesta cidade como ratos esperando o ataque final? Já faz uma eternidade que não vivemos, porém sobrevivemos como condenados em Atenas que se transformou em um grande cárcere e se abdicarmos do mesmo somos executados pelos selvagens espartanos — em um ambiente trivial já teria se aquiescido, mas os cabelereiros em sua posição de sapientes ouvintes são capazes de extrair as mais francas confissões, portanto, logo o mesmo emenda. — Ele se esforça para disfarçar a realidade com as suas ornamentações, mas elas não descaracterizam o nosso calabouço e mesmo que estejamos inseridos em uma excêntrica ilusão artística, logo a sangrenta realidade nos abocanhará e estamos indefesos. Mas nada disso importa para o Péricles que só deseja conquistar os louvores imediatos do povo que se vende por arte dispendiosa, já que tudo que ele almeja é limpar o maculado nome da família fruto de sementes malditas do ostracismo.

Apesar, do palpável desagrado que se percebe através das narinas dilatadas do senhor também cliente, o mesmo contesta dando voz a razão, ao invés do ignorante ódio.

— O poderio espartano é superior em terra, então é uma astuta escolha preferir embates náuticos com Esparta, já que, somente ela iria se beneficiar se escolhêssemos jogar segundo as regras que os disciplinados espartanos são tão experientes. Não há motivo para renunciarmos da vantagem marítima, porque o mar é o único campo de batalha onde temos a primazia contra os filhos de Ares. Nós nos orgulhamos tanto de reverenciar a estrategista Atena, porém ambicionamos agir com a força bruta e estulta de Ares. Agora devido a Péricles a Liga de Delos é um fidedigno império ateniense, ele promoveu a arte e a literatura sendo o responsável pela fulgente reconstrução da Acrópole que nos presenteou com o inigualável templo Partenon e só pela sua existência, contraímos uma perene dívida com o Péricles que ninguém está se dispondo a pagar.

O mancebo arqueja ao contrariar transmutando a expressão da sua ampla face.

— Todos agem como se o Partenon tivesse sido erguido pela própria deusa Atena, mas não procedeu desta forma e nem mesmo o estimado escultor Fídias trabalhou sem receber e quem remunera o grandioso ego de Péricles são os cidadãos que pagam quantias exuberantes de impostos. Este montante pecuniária seria melhor investido na área militar, pois garantiria a nossa existência que é mais valiosa do que qualquer mármore suntuoso.

O cabelereiro pressentindo o clima de cólera lhe interrompe antes que imploda em uma autêntica altercação e como o silêncio não segreda nada, tenho que partir.

Link para conferir Ópera de Gelo, o meu romance histórico.

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