Charles Dickens - Da Fuligem da Fábrica ao Palácio da Rainha

 Charles Dickens - Da Fuligem da Fábrica ao Palácio da Rainha

    Nascido em 1812, sob o céu enevoado da Inglaterra, Charles Dickens consolidou-se como o romancista mais prestigiado da era vitoriana. Tal proeza seria notável em qualquer época, mas atingi-la durante o reinado da Rainha Vitória — em meio ao apogeu de personalidades como as irmãs Brontë, Oscar Wilde, Arthur Conan Doyle e George Eliot, pseudônimo para Mary Ann Evans — é a comprovação irrefutável de sua genialidade.

    Há algo de verdadeiramente revolucionário em seus pequenos, e amiúde órfãos, protagonistas; um carisma enternecedor que eles, mesmo maculados pela fuligem industrial e a indiferença social, conseguem emanar.

    É fascinante como os personagens de Dickens provocaram e ainda provocam uma simpatia universal. Ele nos compele a olhar para além do estigma, seja em batedores de carteira como Oliver Twist e Artful Dodger, mais célebre por ‘’ Embusteiro Astuto ‘’, em alcoólatras como o Sr. Wickfield, ou mesmo, em meretrizes a exemplo de Nancy e Martha Endell. Porquanto, embora a composição das obras dickensianas tenda ao maniqueísmo, a sua execução está longe de ser óbvia. Isso ocorre porque, sob sua pena, ninguém é apenas o ‘’ produto final ‘’ de sua circunstância. Dickens depreende que o indivíduo é a soma de complexas camadas sociais e psicológicas; ao expô-las para uma sociedade que insiste em relevá-las, ele resgata o que há de mais inerente à nossa condição humana: a empatia.

    Todos o liam e aqui o ‘’ todos ‘’ não é um mero recurso de retórica, contudo uma precisão histórica. Charles Dickens era consumido tanto pelos mais desprovidos, vide os operários fatigados, que se amontoavam nas penny readings — leituras públicas ao custo de um único centavo — quanto pela própria monarquia, então personificada pela Rainha Vitória.

    Havia uma ironia sublime em sua arte: ele retratava os invisibilizados, as crianças marginalizadas e os trabalhadores pobres, que a elite se recusava a esbarrar nas ruas, mas adorava acolher nas páginas de seus livros. Essa façanha só era possível graças à sua escrita sutil; um radicalismo explícito teria banido as suas histórias das prateleiras. Portanto, ele priorizou as entrelinhas, subvertendo a moral vigente por dentro, e foi justamente esse sutil equilíbrio que lhe garantiu tamanha visibilidade.

    Em pleno puritanismo vitoriano, quem senão Charles Dickens poderia satirizar as diferenciações entre um abastado e um miserável magistralmente expostas no trecho a seguir:

    ‘’ Envolto no cobertor que até aquele momento era a única coisa que o cobria, ele poderia ser o filho tanto de um nobre quanto de um mendigo; teria sido difícil para o mais desdenhoso dos desconhecidos adivinhar qual a devida posição dele na sociedade. Mas, agora que ele vestia uma bata velha de calicô que ficara amarelada por conta do uso, ele estava marcado e etiquetado, e imediatamente se colocou em seu devido lugar: era um menino da freguesia... o órfão de um asilo de pobres... o humilde lacaio malnutrido... destinado a ser golpeado e maltratado mundo afora... ao desprezo de todos, e à piedade de ninguém. ‘’

— Charles Dickens, em Oliver Twist

    Ele não é apenas o meu escritor preferido. Foi o do mundo. Dickens ascendeu ao status de celebridade, quando o mito da meritocracia era ainda mais falacioso do que hoje em dia. Ele experimentou o prelúdio do estrelato moderno com plateias exaltadas, desmaios em apresentações e uma frenética agenda de viagem que se estendia da sua pátria até o transatlântico. A sua vida pessoal era um espetáculo tão popular que o autor vitoriano precisaria de alguma sorte para que a multidão não lhe rasgasse as vestes ou para que um manuscrito de sua autoria não fosse comercializado pelo pai leviano.

    Quem lê as desventuras e provações dos personagens de Charles Dickens dificilmente dimensiona o quanto daquele sofrimento pertencia ao próprio autor. No plano da ficção, o famoso Wilkins Micawber personifica o otimismo irresponsável de seu pai, John Dickens, que cultivava sempre a esperança de que ‘’ algo iria acontecer ‘’ até que em seu romance David Copperfield, de fato, algo bom aconteceu. Na realidade, o mesmo não se replicou; mas, pelo contrário: houve uma prisão por dívidas, seguida por um confinamento prisional para a família. Com exceção do pequeno Charles, aos doze anos, o menino foi entregue ao trabalho braçal em uma fábrica de graxa.

    Essa ferida autobiográfica ramificou-se, sobretudo em duas vertentes da sua obra tardia. Em David Copperfield, testemunhamos a agonia de um intelecto tolhido, isto é, a frustração de uma jovem mente que julga-se promissora confinada a um trabalho mecânico e ao isolamento cultural. Já em Grandes Esperanças, o ressentimento reveste-se de contornos sociais com Philip Pirrip, Pip, que começa a envergonhar-se da própria pobreza não por necessidades que a mesma inflige, porém pela ausência de refinamento e distinção; privilégios esses que ele sequer havia desfrutado.

    O vislumbre mais cruel dessa biografia, no entanto, reside no desfecho da crise familiar. É pungente mensurar o tamanho da dilaceração psicológica do pequeno Dickens ao contemplar a família ser libertada do cárcere e, ainda assim, decidir mantê-lo no emprego infantil. Em síntese, os seus personagens não são fruto somente de sua imaginação, contudo também de traumas que ecoam da sua vivência.

    Permitam-me, todavia, despir-me da intransigência científica pertinente à História. Como escritora, o que efetivamente me fascina em Charles Dickens é a sua capacidade extraordinária de emular a Londres vitoriana, consagrando-se como um criador de mundos. Foi essa força imaginativa, aliada aos seus arraigados valores cristãos, que operou uma proeza cultural: ele redefiniu a própria essência do Natal ao moldá-lo para ser o que hoje celebramos à luz de seus ideais, eternizados em sua coletânea natalina.

    Sempre rendo-me ao prefácio de David Copperfield de 1869. A ternura com que o autor evoca o seu ‘’ filho predileto ‘’ e o luto que descreve por desamparar personagens com os quais conviveu por longos anos reverberam em mim. Afinal, por mais que se negue, todos guardam secretamente um benjamim inexplicável, ou seja, aquele livro querido que amamos acima de qualquer outro, povoado por personagens que continuam a coexistir conosco mesmo depois de fecharmos as páginas.

    Aninhada no coração de Bloomsbury, a sua casa londrina camufla-se como se fosse apenas mais uma entre tantas. Ledo engano. Aquele teto pertenceu a um gênio da literatura e a um crítico social de sensibilidade inigualável.

    Entretanto, Charles Dickens foi um homem e, por conseguinte, falível o que inevitavelmente reflete-se em sua obra e vida. Como bem salientou, o meu professor universitário é exequível que se estude tudo sob o prisma de suas limitações ou possibilidades; ambas são perspectivas válidas e produtivas. Para este espaço, optei pela vertente das possibilidades e é, por isso que não me detenho, por exemplo, na representação feminina ou judaica em seus livros.

    Os personagens de Dickens podem ser sim maquiavélicos, mas a minha análise afasta-se do anacronismo. Interpreto-o através da sua complexidade, compreendendo-o tão pleno de contradições como o próprio Philip Pirrip. Pip, que humilhado pela origem humilde, após se deslumbrar com a opulência do enriquecimento, busca redimir-se. É assim que encerro: visualizando Dickens e as suas criaturas, todos a vagar, lado a lado, até à derradeira página, movidos pela esperança de uma redenção final. Tema esse que conversa perfeitamente com a compaixão que ele nutriu pelos desfavorecidos.

Para conhecer mais do meu trabalho, inclusive os meus livros, acesse o link abaixo:

Bibliografia:

CÂMARA DA RAINHA. The Queen's Speech at The Queen's Commonwealth Essay Competition 2023. Royal.uk, 2023. Disponível em: https://www.royal.uk/news-and-activity/2023-11-16/the-queens-speech-at-the-queens-commonwealth-essay-competition-2023. Acesso em: 17 mai. 2026.

DICKENS, Charles. David Copperfield. São Paulo: Penguin Companhia, 2014.

DICKENS, Charles. Grandes Esperanças. São Paulo: Penguin Companhia, 2012.

DICKENS, Charles. Oliver Twist. Cotia: Principis, 2019.

DICKENS, Charles. Um Cântico de Natal e Outras Histórias. São Paulo: Martin Claret, 2014.

DICKENS, Charles. Um Conto de Duas Cidades. Cotia: Principis, 2021.

FORSTER, John. The Life of Charles Dickens. London: Chapman and Hall, [1872-1874].

HOUGHTON, Walter E. The Victorian Frame of Mind, 1830–1870. New Haven: Yale University Press, 1957.

JONES, Richard. The Victorian Practice of Reading Aloud. World Literature Today, 2020. Disponível em: https://worldliteraturetoday.org/blog/cultural-cross-sections/audiobooks-and-charles-dickenss-victorian-practice-reading-aloud. Acesso em: 17 mai. 2026.

RECONSTRUCTING a ‘National Treasure’: (Auto)biography and Authority: Dickens and Forster’s.

THE GUARDIAN. The Theatre of Charles Dickens. The Guardian, 2004. Disponível em: https://www.theguardian.com/stage/2004/jan/31/theatre.classics. Acesso em: 17 mai. 2026.

Comentários

  1. Não é por nada que o nosso grande mestre Machado de Assis era fã dele! Texto nota 10! Uma escrita madura, poética e precisa

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  2. Parabéns, uma análise cuidadosa e bela, querida. Adorei

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  3. Texto impecável 👏👏👏

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  4. Inspirador , leitura agradável, acessível , poética digna de uma grande escritora .

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  5. você tem um talento incrìvel

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