A Máscara Veneziana - Conto


    O campanário remete a um alteroso farol flamejante. Seria até blasfematório, caso fosse desprovido dos alvos ornamentos em mármore e, sobretudo, do Arcanjo Gabriel, que resplandece do cume em sua áurea constituição. Por essa razão, quando a humanidade é coberta pela neblina, aparenta que ele nos rege do plano celeste. Ou melhor, rege o resto de nós. Não sou ignara o suficiente para crer que serei abençoada com a absolvição divina.

    Ademais, existe a Torre do Relógio. Quem se instrui diz haver ali todo o universo pormenorizado. Contudo, pessoalmente, aprecio o vivaz azul salpicado de estrelas que reveste alguns adornos, o leão alado que representa o maior símbolo citadino e os dois mouros petrificados do sino, que repousa no píncaro como uma elegante coroa. Há também a basílica, cujas cúpulas se agregam uma sobreposta à outra, como a mais exuberante cordilheira arquitetônica exequível. Ela serve de encantador cenário para os Cavalos de bronze de Constantino, petrificados em meio a um galopar devido ao capricho da Medusa. Ao passo que, ladeando o cenário, prorrompem as pequenas colinas santificadas por abrigarem sacros mosaicos sarapintados que nunca arrostei.

    O alto ainda persiste como uma incógnita para mim. São somente esbeltos fragmentos que recolho quando consigo arremessar algum relance para cima. No entanto, confesso não ser uma incidência ordinária. Estou sempre de olhar prófugo, empenhando-me para que, emudecida, eu me dissipe entre a balbúrdia da turba que se prolifera após o findar da missa matutina.

    A Praça São Marcos é um formoso regalo veneziano à humanidade. Por isso, eu não honro a minha pátria quando emprego o principal rossio da sua capital como joguete de uma larápia. Malgrado, sequer sei se provenho da República de Veneza; todo o meu nascimento é um absoluto enigma. Desconheço de onde partiu o precário barco pesqueiro que estava à deriva no cais, trazendo uma jovem mulher tísica que rumorejava disparates incongruentes com um recém-nascido nos braços descarnados. Assim como desconheço o meu pai. Conjecturo se tratar até de Poseidon que, inapto para renunciar ao mar que governa, logo me desertou no hospital onde fui fadada órfã, apesar de todo o zelo dos marinheiros que nos transportam.

    Não obstante, fui nomeada Fortuna. Um terno atributo à sorte que tive por não sucumbir pela enfermidade que ceifou o fio de vida da minha mãe, conquanto acredite que tal epíteto seja um exagero. Embora as Moiras tenham poupado a minha existência, logo percebi que a teceram repleta de árduos emaranhados. Assim que concluí a puerícia, na qual me restringia a mera mensageira hospitalar, desvelei-me para ser mais proveitosa em meu amparo. Entretanto, após desmaiar seguidamente frente a intensos sangramentos e prevaricar no fechamento adequado de uma horrenda ferida, fui expulsa do meu primeiro e único lar. Parti junto com Francesco, em virtude da esfinge maldita cujo enigma ainda não desvendei.

    Eu e ele compartilhamos do mesmo sobrenome. Ambos somos filhos da desventurada orfandade e, como desgraçados irmãos, jamais nos desprendemos. Embora esporadicamente eu o desgoste, Fortuna Orfano e Francesco Orfano são uma família. Nosso ofício consiste em surrupiar, dado que, aparentemente, é tudo em que conseguimos nos versar.

    Mesmo assim, ainda aproveito um inveterado ensinamento. Ao esbarrar em um altivo senhor que caminhava parcimoniosamente, ondeando sua capa negra de arminho, logo introduzi a minha tesa mão na vastidão da sua dispendiosa indumentária. Através do meu tato cirúrgico, proveniente do fugaz treinamento hospitalar, fui hábil para um célere roubo. O ato concretizou-se no exato momento em que, após encostar em sua frígida pele lívida, comprimi o punho. Experimentei uma parca dor, como o furo apressurado de uma agulha. Malgrado, a dor sequer se equiparou ao perfurar do fulgurante olhar senhoril, acrescido pelo luzir de algo no fastígio da própria cabeça, como se estivesse ornamentado com uma auréola. Ou seja: furtei um santo.

    Nem me detive no sacrilégio. Tal mísero átimo é o único período de letárgica hesitação de que uma ladra é capaz de fruir, antes que a corda da forca, já asfixiante, enfim a estrangule.

    Consequentemente, incorporei uma postura escorregadiça ao escapulir da exaltada multidão. O povo se eriçava como uma fera. Conforme os urros e rugidos avolumavam, senti que esquivava entre os dentes do predador que se esforçava para me abocanhar. Mas, por mérito do meu venturoso caráter atormentado, logo adquiri uma concernente faceta erradia. Ela foi crucial para que eu escape, enveredando por um sortimento de pontes estreitas. Caminhos que, por fim, não ambicionavam nenhuma localidade específica, contudo somente a fuga de uma reles presa. Minha sobrevivência cotidiana persevera por mera teimosia pessoal e alguma simpatia do destino, já que é o imprevisível acaso que torna tão árduo caçar o meu encalço.

    Após asserenar a respiração entrecortada, enfim abaixei ainda mais o meu barrete cinzento. Entrajo-o como mais um astuto artifício para me emaranhar ao nevoeiro, embora não seja especialmente indispensável. Afinal, tenho meramente alguns traços esquecíveis, os quais me diligencio para conservar: a vista miúda na fronte avantajada, o nariz aquilino, os lábios tão descorados que se confundem com a própria pele lívida, e as curtas madeixas encaracoladas que parcamente transpassam o meu característico chapéu. Enfatizo isso por meio de uma aparência desleixada, com uma andrajosa indumentária folgada que disfarça a minha corpulenta constituição. Tudo me induz a supor que estou honrando a sina que as Moiras fiam no divino tear.

        Inconscientemente, desaguei em minha própria moradia — caso tal arcaico prédio decadente acate uma descrição tão elogiosa. No entanto, renegando o sarcasmo, estou diante de uma residência estimada. Ela é vantajosa devido à acentuada discrição que todos os moradores prezam, algo que, para a minha desfavorecida figura, é mais apreciado do que todo o resto. Para alguém que subsiste vagando no limbo social, nada é mais admirado do que um confiável recanto do qual consiga se apossar. Por isso, até distensionei os meus rígidos ombros quando entrevejo de soslaio, no píncaro do fúnebre edifício, a silhueta da pequena mansarda onde me é consentido desarmar-me.

    Esse lar nauseabundo é o norte para o qual a minha bússola anímica sempre me guia. Por essa razão, contente, abri o enferrujado portão de acesso. Ele rangeu languidamente, como de praxe, fazendo-me esboçar um tímido sorriso pueril: finalmente algo cumpria com a expectativa. Em seguida, subi as ermas escadas que aparentam compor a escadaria de uma decrépita capela mortuária. No último andar, encontrei a minha porta entreaberta. O fato deveras me enfureceu. Escancarei-a vociferando, malgrado ainda estivesse arquejante:

    — Francesco, quanta imprudência! Se és apto para te prover de algum juízo, aconselho que imediatamente o faça. É cada vez mais custoso se desembaraçar para que a bruma nos dissipe. Afinal, eu não tenho nenhum elmo de Hades; entretanto, graças à tua leviandade, logo visitarei o tétrico Submundo.

    Francesco estava debruçado em meio a diversos livros, esparramados por todo o aposento desmazelado. Conquanto eu tenha irrompido com a técnica furtiva na qual me aprimorei, ele limitou-se a erguer o plácido olhar inexpressivo. Sendo esbelto, e tendo plena consciência de tal, ele sempre conserva uma postura empertigada e confabula mirando os límpidos olhos verdes diretamente no semblante do outrem. Devo confessar que é verdadeiramente fascinante. A maneira como a sua íris esverdeada contrasta com os cabelos ruivos é graciosa. Quando eles são contemplados pelo sol, aparentam esbrasear, realçando as inúmeras sardas que surgem como estrelas em seu absurdamente lívido rosto. Sintetizando, Francesco exibe contornos delicados, como se fosse a obra de um meticuloso escultor; ademais, as suas grandes esmeraldas lhe conferem uma expressividade que faz com que eu preste atenção em seu pronunciamento, apesar de ele merecer um sopapo.

    Eu o arrosto há tanto tempo que até abrando o meu furor. Este, porém, reascende perante o ressoar de suas sonorosas gargalhadas, que revelam diminutos dentes reluzentes. Confidenciarei: ele exerce certo poderio galante sobre mim; aliás, sobre todos. Além da inerente beleza, é galardoado com uma exímia eloquência. Esbanja-a no excessivo cortejo descompromissado, todavia igualmente a prodigaliza na revenda de tudo que usurpamos, como sou compelida a admitir. Ele é memorável em demasia para um ladrão; por outro lado, eis aí o que confere ainda mais singela credibilidade a um vigarista. Portanto, os papéis com que cada um se incumbe são assaz espontâneos. É como se estivéssemos atuando em uma peça olvidada, estranhamente familiar. O que não ameniza a minha exasperada repulsa pelo divinal roteiro, e nem mesmo pelo petulante protagonista, que riposta com um audaz sarcasmo:

    — Juro que até simpatizo com a exacerbada relevância que nos incute. Quando, infelizmente ou felizmente, toda a aristocracia é constituída por adiposos senhores abastados que não vasculham ruínas para reaver alguma vulgar bijuteria...

    Não reprimo um esgar de reprovação defronte do seu atrevido comportamento burlesco. Por conseguinte, suspirando enfadada, vejo-o reassumir a seriedade ao indagar, embora ainda haja alguma troça na parcimônia da sua entonação:

    — Adoraria averiguar qual é a próxima mercadoria que comercializarei na Rainha do Adriático.

    Repasso o objeto. Enfim, descubro se tratar de um anel dourado, ornado com o ilustre leão alado, onde está gravada uma exígua inscrição em latim. No entanto, quando me apercebo da minha mão ensanguentada, cujos filetes do vital ouro rubro ainda gotejam, logo sou avassalada por um genuíno temor. O medo persiste entorpecendo o padecimento ainda latente. Tudo o que consigo conceber em minha túrbida mente, enquanto tremulo com uma cegueira passageira, é um único questionamento. Tento perscrutar qual a probabilidade de que o meu sangue se tenha vertido pelo solo, confeccionando um rastro mórbido até o refúgio.

    A lúgubre trilha escarlate ainda é abstrata como os imprecisos contornos de uma nuvem, até que ele brada, entusiasmado:

    — O anel do doge, Fortuna! Estou realmente incrédulo com a indizível sorte...

    Malgrado, ele se detenha em uma afobada oratória de alegre euforia, permanecem ensimesmada. Conforme o nevoento horizonete se clareia, revela o Palácio do Doge com as suas requintadas colunatas de mármore. Unicamente o entreolhei no passado; devido aos calabouços que abriga, sempre o evito. Inobstante, agora vislumbro uma visguenta poça carmim matizando todo o panorama palaciano.

    Talvez, eu me tranquilizaria se abrisse as janelas para contemplar, onde a cintilante água transcorre, meandrando como uma colossal serpente por toda Veneza. Assim, digressionaria que o mar que já me embalou na paupérrima embarcação em que nasci poderia novamente me acalentar. Mas assento em um navio atracado que estou inábil para desocupar. Sou um peixe exilado cujas redes se estendem para me fisgar. Cismo que estou protelando um dilema cuja existência desprezo por lograr das suas respectivas regalias. Sou acompanhada pelo tétrico algoz da culpa, que arrasta a lâmina para me rememorar de que, ao menor deslize, a voraz espada de Dâmocles despenca para cumprir com o seu sangrento propósito.

    Tal reflexão transparece no meu rosto, porque Francesco logo galhofa, apesar do semblante circunspecto:

    — Perdoe-me por constatar que estás abusando do pó de arroz; estás pálida como uma assombração. Pelo menos, permita-me conhecer a sua trágica morte.

    Apesar da zombaria, conto acerca do meu receio. Ele o trata como ocioso capricho de quem é agraciado com um insólito repouso. Desenha a atraente face em desdém, para depois arrematar, vivaz, como se tivesse enfim me decifrado:

    — Tu estás ensandecida pela exaustão. Devemos espairecer. Quiçá, festejar em um baile de máscaras, onde qualquer desconhecido apessoado desfruta de uma régia diversão. — Persuadido pela própria concepção de entretenimento, ele revira os seus pertences enquanto complementa, animado: — Desprender-se de si é a experiência mais prazenteira e libertadora que o homem é capaz de vivenciar.

    Contesto resoluta, em uma autêntica promessa pessoal:

    — Discordo com veemência. Tudo o que desejo para ser feliz é abdicar da máscara que trago comigo desde que vivemos juntos.

    Ele me encara, incrédulo, enquanto caçoa desdenhoso:

    — Limpe o chão com as próprias lágrimas e me diga se isso seria felicidade.

    Nem o ouço. Embarco para o Novo Mundo, ou melhor, para uma nova vida em um outro amanhecer. Deixo como única recordação para Francesco o anel do doge, como um último pecado da minha figura mascarada.

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