As diferentes facetas da multifacetada Maria Antonieta

 As diferentes facetas da multifacetada Maria Antonieta

Quando nasceu em 1755, sob os céus da majestosa Viena, nenhuma esperança singular recaía sobre os ombros da penúltima filha da influente imperatriz do império Habsburgo, senhora de glórias políticas e quase toda vasta Europa. Entre dezesseis descendentes, onze das quais compartilhavam o nome Maria, ela não parecia propensa a destacar-se, senão por uma incomum beleza.

Desde o nascimento àquela menina já estava destinada ao papel de esposa de rei. Embora, à época, ainda não se soubesse de qual trono, talvez de um grande império, ou mesmo, de um incógnito principado germânico. 

Os Habsburgos haviam se tornado célebres justamente por sua diplomacia nupcial, firmando alianças através de casamentos, ao invés de espadas. Um provérbio latino cristaliza essa política: "Que outros façam guerra; tu, feliz Áustria, casa-te". Coincidentemente, a diplomacia seria uma virtude que Maria Antonieta, já rainha, encarnaria com surpreendente habilidade.

Separada dos seus conterrâneos e até da própria família, ainda na infância, para transformar-se em uma legítima francesa, a Maria Antonieta sempre trouxe consigo uma dificuldade de integrar-se onde quer que estivesse. Não obstante, a sua solidão institucional, mereça um post à parte, limito-me a dizer que a menina cresceu entre um estudo metódico e o acúmulo de uma miríade de responsabilidades.

Às vezes, considerada um mártir, assassinada pelo mesmo povo que desde o berço se esforçou para emular. Às vezes, interpretada como uma megera desalmada que, em virtude da frivolidade é incapaz de se enternecer com a frágil situação socioeconômica da França monárquica.

Maria Antonieta, desde o princípio demonstrou um amor genuíno por crianças. Foi mãe de quatro filhos biológicos e adotou outros quatro. Dentre esses, um me parece especialmente simbólico: Jean Amilcar, menino senegalês ofertado à rainha como um presente. Maria Antonieta, tomada de horror ante a objetificação da criança escravizada, o acolheu como filho. Embora, a enfermidade o tenha levado ainda jovem. Jean, em vida, foi deveras reconhecido por seu talento artístico.

Logicamente, muito do que se diz dela foi inflado ou fabricado. A célebre frase “Se o povo não tem pão, que coma brioches”, a título de exemplo, tantas vezes evocada pela nossa memória coletiva sequer lhe pertence. Na realidade, ela apareceu através da pena de Rousseau, anos antes, como caricatura do desprezo nobre. Mas, é fato consumado que Maria Antonieta buscava nos excessos um refúgio contra o cerco de intrigas francesas ao qual foi exposta desde os 14 anos. 

Amava festas e sobretudo bailes de máscara, onde podia despir-se da realeza e vestir-se de anonimato. Gostava de bebidas, amores de ambos os sexos e jogos de azar. Como bem exemplificado, pela difundida anedota histórica de que Luís XVI, para agradá-la, mandou construir-lhe um cassino em Versalhes, onde ela jogou por trinta e seis horas seguidas, como quem busca, no acaso das cartas, fugir ao fadário que estava predestinada.

        O seu amor pelo teatro revela outra manifestação de seu desejo de escapulir a realidade em que estava agrilhoada. Mandou erguer o Petit Théâtre de la Reine, um palco encantado onde ela não era a rainha, mas a lavadeira, camareira, burguesa, qualquer mulher que não ela mesma. Representava para poucos escolhidos, como se encarnar outras vidas lhe permitisse escapar da sua.

Apesar dos escândalos que lhe maculavam a reputação, Maria Antonieta tinha um faro político que honraria a sua mãe, a poderosa Maria Teresa da Áustria. Foi uma peça estratégica e consciente no xadrez que pretendia instituir a monarquia constitucional na França. Estabeleceu alianças improváveis com revolucionários como o conde de Mirabeau e Antoine Barnave que, sob a penumbra dos bastidores, atuaram como mediadores entre a coroa e a revolução. Mirabeau, em carta célebre, chegou a proclamar: “O rei só tem um homem com ele: a sua mulher.”

Com o tempo, algumas de suas facetas cristalizaram-se em lendas, já outras apagaram-se no esquecimento. Uma lástima, pois alguém tão multifacetada como ela precisa ser compreendida em sua intricada e profunda humanidade. Compreendê-la por inteiro, quiçá revele o porquê de sua imagem persistir como o mais emblemático símbolo da monarquia de todos os tempos.

        Pretendo me empenhar, nos próximos textos, em apresentar outras “Marias Antonietas ‘’ múltiplas, paradoxais, fascinantes, como a própria história exige e merece.


Para conhecer mais do meu trabalho, inclusive os meus livros, acesse o link abaixo:


Bibliografia:

CASTELLOT, André. Maria Antonieta. Tradução de Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Livros do Brasil, 1990.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: A jornada. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

LEFEBVRE, Georges. A Revolução Francesa. Tradução de Eliana Aguiar. São Paulo: Unesp, 2003.

MITFORD, Nancy. Maria Antonieta. Tradução de Jorge Bastos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1950.

NAGEL, Susan. Marie-Thérèse: Child of Terror – The Fate of Marie Antoinette’s Daughter. New York: Bloomsbury Publishing, 2008.

SCHRODER, Timothy. A Silvered Renaissance: The Habsburgs and the Arts of the Court. New Haven: Yale University Press, 2021.

TARNOWSKI, Beata. Mirabeau: A Life of the French Revolution. Londres: HarperCollins, 1999.

TOYNBEE, Arnold. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

WHEELER, Mark. The Habsburgs: Embodying Empire. Nova York: Oxford University Press, 2016.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Les Confessions. Paris: Garnier-Flammarion, 1968.

FRANCE. Château de Versailles. Marie-Antoinette at Versailles. Disponível em: https://en.chateauversailles.fr/discover/history/great-characters/marie-antoinette. Acesso em: 12 abr. 2025.

Comentários

  1. Maria Antonieta , realmente uma mulher a frente de seu tempo , uma verdadeira representante da força feminina , muitas vezes não tem recebido o devido valor histórico !
    Parabéns a escritora pela reflexão !

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    Respostas
    1. Concordo, ela por ser uma figura tão multifacetada, por vezes, é interpretada de uma maneira demasiado simplificada.

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  2. Adoro ela uma pessoa tão revisitada em filmes, séries e livros, mas ainda tão incompreendida

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